quarta-feira, 26 de agosto de 2009

"A serenata". Um poema de Adélia Prado, em tempos de ler poesia.





Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Qunado ele vier, porque é certo que vem
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?


Adélia Prado. Em Poesia Reunida, Siciliano, 1991.


Desenho: "Parede". Ígor Souza.

Um comentário:

ADRIANO NUNES disse...

Ana,


Sublime e encantador! Salve Adélia Prado!


Grande abraço,
Adriano Nunes.