"A serenata". Um poema de Adélia Prado, em tempos de ler poesia.





Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com a boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobro
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Qunado ele vier, porque é certo que vem
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?


Adélia Prado. Em Poesia Reunida, Siciliano, 1991.


Desenho: "Parede". Ígor Souza.

Comentários

ADRIANO NUNES disse…
Ana,


Sublime e encantador! Salve Adélia Prado!


Grande abraço,
Adriano Nunes.

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