sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O Tormento de Deus. Um poema de Alain Bosquet



Deus disse:

"Se tal vos repugna,

não acrediteis em mim,

mas ficaria feliz

se encontrásseis algum encanto

num ou noutro ser da minha lavra:

o búzio, onde dorme a música,

o plátano, que cresce para lá das estrelas,

o mar, que diz cem vezes: "Eu sou o mar".


Sinto-me muito humilde:

o meu universo não é mais belo

do que um poema perdido."


Postado por Maria Gomes http://romadevidro.blogspot.com/
Foto: Mário Vítor.


sábado, 12 de setembro de 2009

11 de setembro

Denso, denso.
Minutos que se poderiam esculpir.
Setembro vem impiedoso.
Manhattan dinamitado, coração implodido.
E pensar o quanto lamentamos “não poder, sozinhos, dinamitar essa ilha”...

Nossa pequenez, a vida e o turbilhão de cartas postas sobre a mesa.
Nenhuma mesa, aliás, nenhum chão, nenhuma certeza.

A fissura da imprevisibilidade e da
medida que cabe ao homem,
ante a Salvação prometida, vivida, feito morte e vida.

Nossa cegueira, nossos falsos ídolos.
O coração pequeno, minha viagem contida numa guerra.
Minha própria guerra me ocupa.
Vida a que me apego, vida que vislumbro,
vida de que fujo.
Graça imerecida, vãs as minhas palavras.
Só Tu, Senhor, tens palavras de vida eterna.


Publicado em A Impossível Transcrição.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Fugazes como estrelas












(1) Estrelas coloridas em abundância dentro do aglomerado globular Omega Centauri

(2) Fotografia tirada em 27 de julho e cedida hoje pela Nasa mostra uma estrela moribunda, com massa cinco vezes superior à do sol, rodeada por gases de 19.982 graus centigrados. A nebulosa chamada de Mariposa foi captada pela nova câmera do telescópio espacial Hubble

(3)Explosão marca o nascimento de uma estrela em meio ao caos na nebulosa "Carina". http://www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/galeria-20090909-hubble.shtml


Novas fotos espaciais são divulgadas na interessante data de ontem. Conta-me uma aluna que esses números (09/09/09) remetem à eternidade. Por essa razão, milhares de mães chinesas se programaram para ter seus filhos neste dia - estrelas coloridas em abundância.

Perplexa, vejo em luz e cor o nascimento e morte de estrelas, fugazes elas próprias, na dimensão da eternidade.

Fugazes como estrelas, jovens são mortos na cidade do Salvador, em plena luz do dia, um deles em um dos mais movimentados terminais de ônibus.

Tanta maravilha. Tanta dor.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009




O verão veste a cidade de deslumbramento.


Urban Sunset. Foto de MVìtor.
http://www.flickr.com/photos/mvitor

domingo, 6 de setembro de 2009

Brasil - Retratos Poéticos 2010 (Escrituras Editora)

Queridos,

acabo de receber a Agenda Brasil Retratos Poéticos, editada já há alguns anos pela Escrituras. Cada edição traz poetas de um determinado estado brasileiro e, na edição 2010, a Bahia é o estado escolhido. José Inácio Vieira de Melo fez uma seleção primorosa de fragmentos poéticos de autores baianos contemporâneos, não faltando clássicos como Gregório de Mattos e Castro Alves. Eu não sabia, mas o primeiro livro de poesia publicado no Brasil foi de um poeta baiano (mas vocês vão ter de ver o nome dele na agenda, pois, no momento, me escapa...).

Estou lá também, muito feliz ao ver alguns versos meus entre tão belas páginas!

Além de partilhar com vocês esta alegria - que não é de última hora, mas sim de 'antes da hora', pois que se trata de algo para o ano que vem... -, quero divulgar essa agenda, sem dúvida uma bela idéia para presentear os amigos: fotos do Brasil, fragmentos de seu corpo e de sua alma.

De "Exercícios de Utopia", o novo livro de Francisco Carvalho




O querido Poeta, sempre generoso com esses aprendizes de poesia que somos nós, me envia seu novo livro. Não posso imaginar nada melhor que, neste domingo, transcrever alguns de seus poemas. Impossível escolher um único. A poesia de Francisco Carvalho é pura arte, comoção, beleza, portas abertas para o infinito. Permanência.



A poesia é uma diáspora de palavras,
algo que não se toca nem se vê.
Estandarte de papel dilacerado
pelo vento na tarde azul.
A poesia é nada.
O mito que ressuscita das cinzas
do pássaro.

*

A palavra é uma dança de serpente
sagrada, a faca amolada,
o sangue gotejando no umbral.
A palavra é o cenho retorcido do assombro
o que vai e não volta
o que se procura e o que se extravia
a ausência que dilacera
o que permanece no olfato e na memória
o que atravessa a garganta como se fosse um punhal
o que no peito é ferida aberta
e sangra até a morte.

*

Ninguém para decifrar o léxico dos bêbados.
Ninguém para escrever uma ode aos
ovos das galinhas. Ninguém para celebrar
a insônia dos cachorros e a música
dos cascos dos cavalos. Ninguém para
repartir os gomos do poema como se fossem
de um pão de centeio. Ninguém para
irrigar a lavoura hostil das palavras. Ninguém
para nos ensinar os caminhos dos
rebanhos e do adeus.

*

Todas as noites sou seduzido pela cosmogonia
das serenatas e dos violinos. Todos os meus sonhos
são vértices desmoronados. Todos os meus
desejos farfalham. Todas as minhas frustrações
sobem por ladeiras íngremes.

*

O poema é do sexo feminino,
tem astúcias de mulher
que se quer devorada pelo amor.

O poema gravita ao redor de si mesmo.
Está nu diante do espelho
e acaricia suas ondulações mais íntimas.

O poema é uma ponte que se deita
em nosso corpo. Dialoga
com devassidões de outras esferas.

Uma ponte para o caos ou para o devaneio.
Ou para a fugacidade dos sentidos.
Ou para o sonho que rasteja à procura de nada.


*

Um poema
pelos duzentos
mil mortos do Timor
Leste. Um poema com gosto
de sangue e de terra molhada. Um
poema com veneno de cobra, escamas de
peixe e dorso de lagarta. Um poema com
cio de tigre, asa de pássaro e vértebras de punhal.

Um poema
irrigado pelas
vertentes e o cântico
das fontes. Um poema contem-
plado pelas retinas do orvalho e aca-
riciado pela sensualidade das abelhas. Um
poema cingido pelo diadema de espinhos da
montanha em memória dos mortos do Timor Leste.

*

Todos os caminhos começam
e acabam na infância
todos os caminhos
recendem a adeuses
todos os caminhos
são exílios da memória
todos os caminhos
nos levam para dentro de abismos
todos os caminho partem
mas não sabem quando voltam.

*

O poeta é alfa e ômega
senta-se à mesa dos bastardos
convoca os ancestrais do povo, semeia
a liberdade nas entranhas das palavras
vomita a ceia dos neutros.
Vai ao banquete e não se degrada
refaz a teia do mito e promulga o adeus
reparte metade da metáfora
celebra a terra e os ritos da fecundação.
O poeta cuspiu na luminosidade da aparência
recuperou o cigarro apagado
despencou do trapézio sobre o hímen
dilacerado da tradicional família burguesa.

Exercícios de Utopia: poemas. Francisco Carvalho. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009.

"Contando". Miniusina de Ígor Souza. http://www.fotolog.com.br/igorsouza/

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Móbile



Novos espaços,
e os mesmos labirintos de ocultamento e disfarce.
Perturbação e enleio, desconforto no próprio eu.

O eu está desconfortável.
Como o equilibrista do Cirque du Soleil, confia naquele que segura os fios.
Seu movimento é ilusão, só existe nas mãos daquele.

O equilibrista está desconfortável.
Inventa nós e tranças.
Abismos e angústias nada mais são que disfarces.

O salto no infinito.


[Publicado em A Impossível Transcrição.]
O trabalho de Igor Souza, Sem título, está disponível em http://www.fotolog.com.br/igorsouza/