De "Exercícios de Utopia", o novo livro de Francisco Carvalho




O querido Poeta, sempre generoso com esses aprendizes de poesia que somos nós, me envia seu novo livro. Não posso imaginar nada melhor que, neste domingo, transcrever alguns de seus poemas. Impossível escolher um único. A poesia de Francisco Carvalho é pura arte, comoção, beleza, portas abertas para o infinito. Permanência.



A poesia é uma diáspora de palavras,
algo que não se toca nem se vê.
Estandarte de papel dilacerado
pelo vento na tarde azul.
A poesia é nada.
O mito que ressuscita das cinzas
do pássaro.

*

A palavra é uma dança de serpente
sagrada, a faca amolada,
o sangue gotejando no umbral.
A palavra é o cenho retorcido do assombro
o que vai e não volta
o que se procura e o que se extravia
a ausência que dilacera
o que permanece no olfato e na memória
o que atravessa a garganta como se fosse um punhal
o que no peito é ferida aberta
e sangra até a morte.

*

Ninguém para decifrar o léxico dos bêbados.
Ninguém para escrever uma ode aos
ovos das galinhas. Ninguém para celebrar
a insônia dos cachorros e a música
dos cascos dos cavalos. Ninguém para
repartir os gomos do poema como se fossem
de um pão de centeio. Ninguém para
irrigar a lavoura hostil das palavras. Ninguém
para nos ensinar os caminhos dos
rebanhos e do adeus.

*

Todas as noites sou seduzido pela cosmogonia
das serenatas e dos violinos. Todos os meus sonhos
são vértices desmoronados. Todos os meus
desejos farfalham. Todas as minhas frustrações
sobem por ladeiras íngremes.

*

O poema é do sexo feminino,
tem astúcias de mulher
que se quer devorada pelo amor.

O poema gravita ao redor de si mesmo.
Está nu diante do espelho
e acaricia suas ondulações mais íntimas.

O poema é uma ponte que se deita
em nosso corpo. Dialoga
com devassidões de outras esferas.

Uma ponte para o caos ou para o devaneio.
Ou para a fugacidade dos sentidos.
Ou para o sonho que rasteja à procura de nada.


*

Um poema
pelos duzentos
mil mortos do Timor
Leste. Um poema com gosto
de sangue e de terra molhada. Um
poema com veneno de cobra, escamas de
peixe e dorso de lagarta. Um poema com
cio de tigre, asa de pássaro e vértebras de punhal.

Um poema
irrigado pelas
vertentes e o cântico
das fontes. Um poema contem-
plado pelas retinas do orvalho e aca-
riciado pela sensualidade das abelhas. Um
poema cingido pelo diadema de espinhos da
montanha em memória dos mortos do Timor Leste.

*

Todos os caminhos começam
e acabam na infância
todos os caminhos
recendem a adeuses
todos os caminhos
são exílios da memória
todos os caminhos
nos levam para dentro de abismos
todos os caminho partem
mas não sabem quando voltam.

*

O poeta é alfa e ômega
senta-se à mesa dos bastardos
convoca os ancestrais do povo, semeia
a liberdade nas entranhas das palavras
vomita a ceia dos neutros.
Vai ao banquete e não se degrada
refaz a teia do mito e promulga o adeus
reparte metade da metáfora
celebra a terra e os ritos da fecundação.
O poeta cuspiu na luminosidade da aparência
recuperou o cigarro apagado
despencou do trapézio sobre o hímen
dilacerado da tradicional família burguesa.

Exercícios de Utopia: poemas. Francisco Carvalho. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2009.

"Contando". Miniusina de Ígor Souza. http://www.fotolog.com.br/igorsouza/

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