sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Impressões




Perdi os meus escritos por um mês.
Perdi-me a mim mesma do escrever, há meses.

A poesia envia-me sinais,
raio de luz em sótão empoeirado,
imagem de vida em mundo cristalizado e imóvel.

Pergunto-me sobre o estranho ingrediente,
este que me paralisa,
seca as minhas palavras.

Perco a centelha, mesmo a de uma poesia de impressões
– como em Natal, o poema da areia, da luz, do recorte de mar que nos leva a Ponta Negra.
A aderência à areia. E era tudo.


Pés descalços na areia,
olhos fechados,
ao sol e ao vento, e a luz do sol, e a luz do mar,
a água, a água.
E vinham poemas, com a brisa.
Assim passavam, e eu só.

O silêncio nutre,
sem palavras.


Foto de MVítor.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

No silêncio do corpo




O campo é um centauro, dizia o professor. Uma encruzilhada hermenêutica que construo mas me incorpora definitivamente em seu intransponível horizonte de equívocos. A análise é um centauro. Eu sou um centauro, às vezes sem existência real, só mitologia, torrentes de palavras neste momento.

Contemplo minhas patas e garras, a cauda do dragão no átrio da Igreja. Seu incenso. Que me açoita e revela o meu eu, minha pertença, o mim. Algo muito fundo.

Do profundo do tempo me amaste, Senhor.

Eu vã, eu louca e ausente, mas ali estou e sou eu, e não sou, fora desse átrio, origem e destino, nenhuma dúvida jamais nesse lugar. Do profundo do tempo esse sintoma me toma e define. Asma como eu. Ana como eu. Que me trava quando contra mim para que eu talvez caminhe em meu favor, mas pelo avesso, e me silencia, me paralisa quando preciso. E como preciso, desesperadamente.

O mundo contra mim, o fluxo contra mim, o eu ignoto remoto no pátio da Igreja, no vão da porta, no átrio.
A Nave.

Asma, unha cravada na pele da alma.

Nenhum sangue.
Desenho de Ígor Souza.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Um poema de Hilda Hilst

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha).

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel.
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst. Do Amor. Poema no. 40

domingo, 11 de outubro de 2009

As memórias inventadas da infância de Manoel de Barros: "Manoel por Manoel".


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era os meninos e as árvores.

Manoel de Barros. Memórias Inventadas. A Terceira Infância.

Menino. Foto de MVìtor.

sábado, 10 de outubro de 2009

Uma antiga viagem e seu silêncio



Fui, vi, voltei. Mas o meu coração em sobressalto ainda quer explodir... Como um oco no centro de mim, onde sintonizo sem disfarce a dor, quando me atinge. Voltei assim da viagem: tudo ecoa, há um oco onde cabe a dor. E há tempo e reconhecimento para isso, agora sei o lugar onde dói, entre coração e diafragma. Essa dor que é a de existir mesmo, dos confrontos e dos limites, e é também a dor desse mundo convulsionado onde vivemos e onde meus filhos vivem, ainda alheios mas vulneráveis. Há um portão fechado no fim do túnel, há muitos acidentes e tensão, e no meio de tudo sonho que quero falar por mim, que é essa a minha questão, essa a minha conquista, sanada a ilusão do migrante, essa de não se estar perdido ainda por lá, nos esquecidos do lugar de onde se veio. Falar por mim, como sou, através desse estar no mundo.


Paredes. Desenho de Ígor Souza (http://www.fotolog.com.br/igorsouza/)


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Escritos extraídos do silêncio (II)




Imagens desatadas.
Fluxo vivo.
Mas me encouraço neste silêncio.

Ou no limite da minha diferença, que é onde estou.
Lúcida, pronta para a grande viagem do ser.
Nem me fira a fé, como à terra o arado, embora.


E no entanto escrever, ainda, poemas herméticos,
palavras que transcendem os acontecimentos imediatos.

Se escrevo tão somente coisas mínimas, dentro de mim
as palavras se pejam, grávidas,
prontas para o parto.


Véu. Foto de MVítor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Escritos extraídos do silêncio (I)


[Um tempo de silêncio e prospecção. A pretexto disso, retomo antiga coleção de escritos - extraídos do silêncio.]

Na calada da noite,
esboço um frágil exercício de recolher escritos.

Na calada de mim mesma,
escritos extraídos do silêncio.

Silêncio e mudez.
Fluxo que acontece à minha revelia,
enquanto pastoreio nuvens, deserta de mim,
ausente do concreto.

O chão, impossível sempre.


Bananeira. Foto de MVítor.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Quando a poética une vida e pesquisa


Partilho com todos os amigos da blogosfera este livro, que está saindo "do forno" agora em outubro. Foram três anos de muito trabalho - com muito prazer e em muito boa companhia. Estamos felizes com o resultado!
Clique sobre as imagens para visualizá-las em tamanho maior.


Um poema de Wislawa Szymborska

Prefiro os países conquistados aos países conquistadores
Prefiro ter objeções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães de rabo não cortado.[...]

Prefiro cidades novas com histórias por acontecer às velhas com muitas histórias
Prefiro andar depressa sem ter aonde ir a andar vagarosamente ao meu destino
Prefiro árvores com galhos baixos para que eu possa subir
Prefiro chuva de pingos grossos às que não molham
Prefiro cabelos molhados
Prefiro flores pequenas
Prefiro músicas antigas que contam um caso de amor às novas que não contam
Prefiro inventar minhas lembranças a lembrar da realidade
Prefiro pessoas de sorriso bobo às que não sabem sorrir
Prefiro casas cheias e bagunçadas às silenciosas e impecáveis
Prefiro pés descalços
Prefiro pele nua
Prefiro refazer meus planos a ter controle de tudo
Prefiro objetos de colorido caótico aos serenamente harmoniosos
Prefiro ir de ônibus para pensar e ver a paisagem
Prefiro o frio quando posso me aquecer
Prefiro o calor quando posso nadar
Prefiro os azulejos aos tapetes
Prefiro amigos insanos
Prefiro ter irmãos
Prefiro musicais a policiais
Prefiro ficar suspensa no ar e cair a sempre ter os pés no chão
Prefiro esquecer a lembrar o tempo todo
Prefiro a surpresa
Prefiro a inconstância
Prefiro a espontaneidade
Prefiro a intensidade
Prefiro amar.