quinta-feira, 15 de outubro de 2009

No silêncio do corpo




O campo é um centauro, dizia o professor. Uma encruzilhada hermenêutica que construo mas me incorpora definitivamente em seu intransponível horizonte de equívocos. A análise é um centauro. Eu sou um centauro, às vezes sem existência real, só mitologia, torrentes de palavras neste momento.

Contemplo minhas patas e garras, a cauda do dragão no átrio da Igreja. Seu incenso. Que me açoita e revela o meu eu, minha pertença, o mim. Algo muito fundo.

Do profundo do tempo me amaste, Senhor.

Eu vã, eu louca e ausente, mas ali estou e sou eu, e não sou, fora desse átrio, origem e destino, nenhuma dúvida jamais nesse lugar. Do profundo do tempo esse sintoma me toma e define. Asma como eu. Ana como eu. Que me trava quando contra mim para que eu talvez caminhe em meu favor, mas pelo avesso, e me silencia, me paralisa quando preciso. E como preciso, desesperadamente.

O mundo contra mim, o fluxo contra mim, o eu ignoto remoto no pátio da Igreja, no vão da porta, no átrio.
A Nave.

Asma, unha cravada na pele da alma.

Nenhum sangue.
Desenho de Ígor Souza.

13 comentários:

Lia disse...

Puxa, ia falar da ilustração, mas a poesia me calou...
.
beijos,
Lia.

Maria Muadiê disse...

puxa...
maravilhoso, forte, entranhou em mim, poeta Ana.

Janaina Amado disse...

Gosto muito de centauros.

Ana Cecília disse...

Queridas,
obrigada por acolher assim um texto tão íntimo (é de quase dez anos atrás, desses que ficam bem guardados, em silêncio) - e os centauros que vêm junto.
Também a mim, ele me deixa quieta e calada. Mas é isso, tocou a vocês, é isso que conta - de coração para coração, sem necessidade de mais palavras.
Beijos, bom fim de semana!

Gerana disse...

Estou fazendo uma visita. Gostei muito de sua casa. Voltarei.
Ana: veja, por favor, quem fez parte da comissão avaliadora no ano em que seu livro ganhou o prêmio da Fundação Casa de Jorge Amado.
Bj.

Gerana disse...

Legal, Ana. A honra é minha. Perguntei porque minha memória mostrava que tinha sido vc, embora já faça tanto tempo e, naquela época mais do que hoje, eu ainda tinha os originais da Fundação Cultural. Enfim, eu estava certa. Viu que seu livro foi inesquecível?

Delma disse...

É isso mesmo, Ana. Você disse com poucas palavras tudo sobre o que conversamos com muitas delas naquela quinta-feira.
Um abraço fraterno!
Delma.

Non je ne regrette rien: Ediney Santana disse...

o corpo, como também disse Arnaldo Antunes, ainda é pouco, para nossas idas e vindas

Marcelo Novaes disse...

Ana Cecília,





Bela litania em prosa poética.


Saber orar é fundamental.





Beijos,









Marcelo.

Ana Cecília disse...

Sim, Marcelo, esse texto é uma oração, do mais profundo.
Obrigada pela visita!

Ana Cecília disse...

Gerana,

ser lembrada nesse nível de memória é muito melhor!
obrigada,
abraço grande.

Ana Cecília disse...

Ediney, de Santo Amaro,
obrigada pela visita!

Raiça Bomfim disse...

Repito Martha, entranhada por tamanho abismo-escrito.