Um poema de Hilda Hilst

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha).

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel.
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst. Do Amor. Poema no. 40

Comentários

Janaina Amado disse…
Ah, Ana Cecília, estou emocionada -não acredito que você postou este soneto da Hilda! É o poema que mais amo da Hilda, uma de minhas escritoras preferidas. Obrigada.
Ana Cecília disse…
Ela é demais, não é?
Esse poema também me toca muito; tão bom saber que a você também.
Abraço!

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