terça-feira, 23 de março de 2010

São Jorge em seu dragão




Imagem captada pelo observatório europeu de La Silla, no Chile, mostra a nebulosa NGC 5189, cujo formato em "s" lembra um dragão. As áreas verdes e avermelhadas são os resquícios de uma estrela à beira da morte.

Em: http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/album/1003_album.jhtm?abrefoto=40

domingo, 21 de março de 2010

Uma belíssima oração para este domingo

Daniel Faria
via "Primeira Pessoa"
via "Literapura"


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

*

Sem outra palavra para mantimento
Sem outra força onde gerar a voz
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede
Que cavaste no meu canto, amo-te
Sou cítara para tocar as tuas mãos.
Podes dizer-me de um fôlego
Frase em silêncio
Homem que visitas
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo
O lume em toda a casa e na paisagem
Fora da casa
Pedra do edifício aonde encontro
A porta para entrar
Candelabro que me vens cegando.
Sol
Que quando és nocturno ando
Com a noite em minhas mãos para ter luz.

*

Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

*



Daniel Faria nasceu no dia 10 de Abril de 1971 em Baltar, Paredes, Portugal.Quando faleceu, no dia 9 de Junho de 1999, era noviço no mosteiro de Singeverga.

http://literapurablog.blogspot.com/
Obrigada por essa descoberta, Mercedes!

sexta-feira, 19 de março de 2010

Trinta e dois anos



...e continuo a descobrir que te amo.

terça-feira, 16 de março de 2010

Quaresma


O poema está em suspenso.

Incompleto, estanque.


A palavra, por vezes, desaba sobre mim,

aos trancos e barrancos,

se nada é suave nos dias que passam.


No Chile, contaram: "eram os gritos e, depois, o terrível silêncio".


Assim estou, memória aos borbotões e, depois, do silêncio,

a imagem que se recorta e emerge.

Palavras se reconstituem, edifícios que se reconfiguram.

Nada é o mesmo se o tempo é de hecatombes e dramas,

tremendos desastres, terrível desespero, espanto sem fim.


Dá-me, Senhor, por um momento e para sempre,

ousar o salto para as águas mais profundas.


160. Foto de Mário Vítor.




quarta-feira, 10 de março de 2010

Poetas de outras plagas

Compartilho este poema de Daniel Felipe, postado pela poeta angolana Maria Gomes, no belíssimo blog A Romã de Vidro (ver link na coluna ao lado):




Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,


acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto


amanhã.



Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo


doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera




Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta


nos contornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.



Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e


apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.


Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as


etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.




Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,


entre ruídos de música e interferências aladas.




Não basta ser feliz.



Não basta a Primavera.



Não basta a solidão.





Daniel Filipe, em: A invenção do amor e outros poemas,
Presença, colecção Forma, n.º1, 8.ª edição, 1994, pp. 43-44.

terça-feira, 9 de março de 2010

Dias de hoje

Dias de hoje: como vê-los sem espanto?

Leio sobre o pacto suicida da família argentina que temia o fim dos tempos e, diante da inércia de governos e sociedades face à questão ambiental, decide controlar a própria morte. Talvez isto façamos todos, em certa medida, metaforicamente embora, vivendo como vivemos.

Por milagre, o membro mais frágil da família, um bebê de sete meses, sobrevive, mesmo baleado, sendo socorrido após 48 horas e entregue aos cuidados dos avós maternos.

É palpável e concreto o grande terror que vivemos. Cegos e surdos, corações de pedra.

Por alguma razão penso no terror sagrado de Abraão prestes a firmar a Antiga Aliança.

Tenho a aflição dos profetas, aflição de que venham a nós, que cheguem rápido, selvagens como os dias dos nossos dias, novos João Batista, seus cabelos hirsutos, sua pele de carneiro, suas palavras de fogo.

Mas fechamos os olhos, "inocentes do Leblon" que passam óleo na pele e esquecem.

They only gotta a feeling that tonight’s gonna be a good, good night - é tudo que diz a canção mais tocada na última década.


Sinais. Foto de Mário Vítor.