Poetas de outras plagas

Compartilho este poema de Daniel Felipe, postado pela poeta angolana Maria Gomes, no belíssimo blog A Romã de Vidro (ver link na coluna ao lado):




Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,


acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto


amanhã.



Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo


doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera




Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta


nos contornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.



Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e


apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.


Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as


etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.




Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante,


entre ruídos de música e interferências aladas.




Não basta ser feliz.



Não basta a Primavera.



Não basta a solidão.





Daniel Filipe, em: A invenção do amor e outros poemas,
Presença, colecção Forma, n.º1, 8.ª edição, 1994, pp. 43-44.

Comentários

Maria Muadiê disse…
Ana, obrigada pelo companheirismo. Me faz muito bem.
beijo

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