"Pergunta de Mulher", por Isabel Maria Sampaio Oliveira Lima







E o que é o desejo?

Este argumento que assalta e inunda, dilacera invadindo pensamento e corpo?

E o que é o desejo, senão este abraço diuturno que se projeta, insistente luz, na meia-noite?

Que noite traz o desejo?

Que alba paisagem o espanta no indevassável trajeto do seu mapa?

Cisma, remói, teima: é nele que identifico a latência da vida.

É sofreguidão e busca. Idéia que se cola na pele da respiração.

Único e pleno.

O que se lhe passa, mulher, com os olhos no dilúvio?

Por onde segue, mulher, sua alma inconclusa?

Para que porta concede, mulher, a mansidão silenciosa do seu patamar festivo?

Desejo que dissolvo, bálsamo e cicuta, sorvendo no tempo os seus suores.

Desejo que estendo, emplastro de argila e folha, sobre a febre do meu corpo.

Deus bramindo suas humanas ondas de êxtase.

Montanhas e prados desatando a terra interior e férrea.

Trilhos desatinados, sem mapas, sem estações vespertinas.

Ah... o desejo que se faz soluço e goma, alçando na sua busca o fero rugir da inquietude.

Festina lente, ora loquaz, desdobra o espaço contingencial do ser:

quer mais, quer mais toque, quer mais presença, quer mais sussurro.

Corre, mas corre devagar, na ebriez do salto.

Quer a inadiável sirene dos portos.

Quer a crepuscular cumplicidade dos sinos. Quer o verbo querer.

Quer mais.

Quer as conjugações possíveis do viver.

E o que é o desejo, esta recuperada rota estelar que me confere teto e identidade?

Qual a idade do desejo impresso nas pedras risonhas quando banhadas pelo mar?

Onde mais se oculta o desejo quando o espelho do seu olhar o denuncia?



Foto: pelo Hubble, algum dia de 2009.

Comentários

Raiça disse…
hummmmm. que bom isso.
Gerana Damulakis disse…
Desejo é um "anseio infinito e vão de possuir o que me possui" (Manuel Bandeira).

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