quinta-feira, 29 de julho de 2010

Conversa no Facebook



Foi assim:
Rosa fotografou.
Ana escreveu uma legenda: o amor não tem idade.
Aí ela parou um pouco e pensou: é amor porque tem idade.
Então Ava falou: é mais amor porque tem idade.
Foi quando Zé Inácio disse: é amor.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um poema de Adélia Prado



Guia


A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem - sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?

Em: Prado, Adélia. Poesia Reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.
Foto: Sarça. MVítor.

terça-feira, 20 de julho de 2010

História que uma mãe conta a outra





Outro dia eu senti uma coisa, uma agonia, assim um aperto no peito, pensei que era minha hora chegando. Daí falei assim, meu Deus, se quiser me leve, estou tão cansada, já criei meus filhos, o mais novo já está com 23 anos. Tudo eu, o pai me largou eles pequenos. Por causa de outra mulher, e só ligava pros filhos que tem com ela. Me deu aquele cansaço, meu Deus, pode me levar, se for a minha hora me leve.

Aquilo foi indo assim, às vezes passava, voltava, aquele aperto no peito. A noite toda, eu deitava, andava pra ver se ia melhorando, esperando mesmo chegar a minha hora. Já tenho 56 anos, já vivi demais, sempre essa luta. Quando foi de madrugada chegou essa menina, da vizinha, batendo na porta, aquele estrondo, aquele desespero, dizendo que ligaram, que meu filho estava no Ernesto (hospital). Aí minha filha começou a gritar, a chorar, eu disse “pare com isso, pare com essa coisa, a gente tem é que ir lá”.

Fui ver o dinheiro que eu tinha, eu tinha vinte reais, foi só tomar um menor e pegar o taxi. Chegamos no Ernesto e aí eu falei pra minha filha, eu assim na porta: “vá lá primeiro e pergunte e venha me dizer”. Porque eu nem sei. Porque o que me disseram é que ele estava no Ernesto já morto, foi essa a notícia que a gente recebeu. Mas naquela hora eu nem sei, fiquei foi ali parada naquela entrada. Ela entrou primeiro e eu fui assim entrando, nem sei como é que eu cheguei lá no lugar que me disseram pra ir, lá dentro assim.

Quando eu fui chegando ouvi a voz de minha filha e a voz dele, eles estavam conversando! Quando me viu ele foi chorando e dizendo “Mãinha, fique comigo, eu preciso da senhora”. Porque a vida inteira eu ensinei, lutando, lavando roupa de ganho, até hoje, ela aí sabe como é minha vida. Pra ele fazer o que fez, se meter com amizades, gente que não presta, usando o que não deve?!. Quando tava com esses amigos, eu nem existia, ele fez o que quis, não me ouvia nada nem ninguém.

A moça de lá falou que ele chegou lá num estado ... as roupas, teve que jogar fora. Levaram ele pra lá nessa hora, era umas onze tanto da noite, a hora que comecei a ficar naquela agonia no meu peito e que não passou, a noite toda.

Eu peguei o ônibus pra voltar, porque era só o que o dinheiro dava, voltei em casa, peguei roupa pra ele, fui pro Ernesto e lá a moça mandou eu limpar ele, lavar e vestir, ele tava só com uma fralda daquelas descartável.

Ele agora reconhece que precisa de mim. Tá lá em casa e eu tô cuidando dele, mas disse a ele que é a última chance que ele tem. Se ele voltar praquela vida, não conta mais comigo não. É a última chance.


Desenho de Ígor Souza.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

No silêncio.






No Casulo, há silêncio de minhas palavras. Não da poesia, porém. Há que respeitar ritmos e tons, há que esperar. Como em um poema, tão antigo:

Efervescente/mente sou
pelas ruas da cidade.
Impura máscara
me faço.

Como se nada mais houvera
além do fustigo
deste falso,
merencório movimento.



Desenho de Ígor Souza.

Lanterna. Um poema de Raiça Bonfim.





Quando eu era miserável e sofria
e via os olhos negros da morte
e ela me feria com seu ar gelado,
enquanto cantava canções antiquíssimas;

quando toquei com os pés
o assoalho da solidão e cruzei
o arco estupendo da noite,
era a dor minha incansável guia.

E eu ia e mantinha os olhos fiéis
e atentos com que distingui na bruma
o portal do sonho, do esquecimento
e o instrumento secreto e simples
de forjar manhãs, horizonte
e estradas.

Da névoa amarga que nos cercava,
fez-se, com suor pesado e coragem,
este reino, esta estação,
onde o reboco é todo de aurora,
de onde se pode ir e vir e esperar,

e onde nunca o amor aporta,
mas sempre existe e brilha.

Raiça Bonfim. Em: Mãinha me deu lápis.
http://raibomfim.blogspot.com/
Ilustração de Vânia Medeiros.