terça-feira, 20 de julho de 2010

História que uma mãe conta a outra





Outro dia eu senti uma coisa, uma agonia, assim um aperto no peito, pensei que era minha hora chegando. Daí falei assim, meu Deus, se quiser me leve, estou tão cansada, já criei meus filhos, o mais novo já está com 23 anos. Tudo eu, o pai me largou eles pequenos. Por causa de outra mulher, e só ligava pros filhos que tem com ela. Me deu aquele cansaço, meu Deus, pode me levar, se for a minha hora me leve.

Aquilo foi indo assim, às vezes passava, voltava, aquele aperto no peito. A noite toda, eu deitava, andava pra ver se ia melhorando, esperando mesmo chegar a minha hora. Já tenho 56 anos, já vivi demais, sempre essa luta. Quando foi de madrugada chegou essa menina, da vizinha, batendo na porta, aquele estrondo, aquele desespero, dizendo que ligaram, que meu filho estava no Ernesto (hospital). Aí minha filha começou a gritar, a chorar, eu disse “pare com isso, pare com essa coisa, a gente tem é que ir lá”.

Fui ver o dinheiro que eu tinha, eu tinha vinte reais, foi só tomar um menor e pegar o taxi. Chegamos no Ernesto e aí eu falei pra minha filha, eu assim na porta: “vá lá primeiro e pergunte e venha me dizer”. Porque eu nem sei. Porque o que me disseram é que ele estava no Ernesto já morto, foi essa a notícia que a gente recebeu. Mas naquela hora eu nem sei, fiquei foi ali parada naquela entrada. Ela entrou primeiro e eu fui assim entrando, nem sei como é que eu cheguei lá no lugar que me disseram pra ir, lá dentro assim.

Quando eu fui chegando ouvi a voz de minha filha e a voz dele, eles estavam conversando! Quando me viu ele foi chorando e dizendo “Mãinha, fique comigo, eu preciso da senhora”. Porque a vida inteira eu ensinei, lutando, lavando roupa de ganho, até hoje, ela aí sabe como é minha vida. Pra ele fazer o que fez, se meter com amizades, gente que não presta, usando o que não deve?!. Quando tava com esses amigos, eu nem existia, ele fez o que quis, não me ouvia nada nem ninguém.

A moça de lá falou que ele chegou lá num estado ... as roupas, teve que jogar fora. Levaram ele pra lá nessa hora, era umas onze tanto da noite, a hora que comecei a ficar naquela agonia no meu peito e que não passou, a noite toda.

Eu peguei o ônibus pra voltar, porque era só o que o dinheiro dava, voltei em casa, peguei roupa pra ele, fui pro Ernesto e lá a moça mandou eu limpar ele, lavar e vestir, ele tava só com uma fralda daquelas descartável.

Ele agora reconhece que precisa de mim. Tá lá em casa e eu tô cuidando dele, mas disse a ele que é a última chance que ele tem. Se ele voltar praquela vida, não conta mais comigo não. É a última chance.


Desenho de Ígor Souza.

2 comentários:

Ana Claudia disse...

Bonito, sabe. Já vi...

Raiça Bomfim disse...

Que texto belíssimo!