Lanterna. Um poema de Raiça Bonfim.





Quando eu era miserável e sofria
e via os olhos negros da morte
e ela me feria com seu ar gelado,
enquanto cantava canções antiquíssimas;

quando toquei com os pés
o assoalho da solidão e cruzei
o arco estupendo da noite,
era a dor minha incansável guia.

E eu ia e mantinha os olhos fiéis
e atentos com que distingui na bruma
o portal do sonho, do esquecimento
e o instrumento secreto e simples
de forjar manhãs, horizonte
e estradas.

Da névoa amarga que nos cercava,
fez-se, com suor pesado e coragem,
este reino, esta estação,
onde o reboco é todo de aurora,
de onde se pode ir e vir e esperar,

e onde nunca o amor aporta,
mas sempre existe e brilha.

Raiça Bonfim. Em: Mãinha me deu lápis.
http://raibomfim.blogspot.com/
Ilustração de Vânia Medeiros.

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