quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um poema de Adélia Prado



Guia


A poesia me salvará.
Falo constrangida, porque só Jesus
Cristo é o Salvador, conforme escreveu
um homem - sem coação alguma -
atrás de um crucifixo que trouxe de lembrança
de Congonhas do Campo.
No entanto, repito, a poesia me salvará.
Por ela entendo a paixão
que Ele teve por nós, morrendo na cruz.
Ela me salvará, porque o roxo
das flores debruçado na cerca
perdoa a moça do seu feio corpo.
Nela, a Virgem Maria e os santos consentem
no meu caminho apócrifo de entender a palavra
pelo seu reverso, captar a mensagem
pelo arauto, conforme sejam suas mãos e olhos.
Ela me salvará. Não falo aos quatro ventos,
porque temo os doutores, a excomunhão
e o escândalo dos fracos. A Deus não temo.
Que outra coisa ela é senão Sua Face atingida
da brutalidade das coisas?

Em: Prado, Adélia. Poesia Reunida. São Paulo: Siciliano, 1991.
Foto: Sarça. MVítor.

5 comentários:

Renata Moreira disse...

Belíssimo poema Ana!!
Escolheu a dedo!!!
Fala tudo, mesmo!

Maria Muadiê disse...

Uma poesia de Adélia uma poesia de Mvitor.

Gerana Damulakis disse...

Perfeito. Adélia é D+

Nirton Venancio disse...

Ana Cecília, fora os poemas que você publica, senti no seu blog um gosto de diário, de manifestações do seu olhar cotidiano. Isso é bom, e até corajoso. Parabéns pelos textos.
Abraços!

Felicidade Clandestina disse...

"A poesia me salvará."


sim, a mim também!


não conhecia essa poesia.
que presente!

obrigada :)