Meu pai

Ao ver o "Nova Colheita", lembrei-me de algumas palavras que nós, seus filhos, escrevemos quando esse jovem professor fez 70 anos – aos 75, ele continua sendo uma das pessoas mais jovens que conheço, por sua inesgotável capacidade de emoção, sonho e encantamento diante da vida.

Naquela ocasião, reeditamos seus "Poeminhas de ainda era uma vez", nos quais ele recorda suas raízes, revivendo cenas e pessoas que lhe povoavam a infância.
São recordações encantadas, cheias de lirismo, e que para mim se misturam a outras que ele me conta, também nostálgicas, sempre delicadas, cheias ora de candura (como os nomes que as coisas tinham no Crato, onde havia biscoitos chamados passa-raiva, ou beijo de moça...), ora de tristeza profunda (como sua lembrança do Adagio no. 3, de Albinoni, que marca o dia em que ele, enquanto olhava crianças a brincar, ouve a notícia da deflagração da Segunda Guerra). Muitos dos versos que constam dos Poemas das Horas Contemplativas, que abrem essa "Nova Colheita," e que selecionei de alguns de seus primeiros livros, foram escritos naqueles anos: é a ânsia do Absoluto, afirmando-se contra o horror da guerra.

Os títulos originais desses livros: "Ramilhetes para Telúricos e Transcendentais"; "Sinfonia Interior"; "Poemas do Sangue e do Amor" são sugestivos desse contraste (essa é a minha interpretação, nunca perguntei a ele...).

No prefácio do "Poeminhas", comemorando os 70 anos do pai, registramos o sentimento que nos tomava então a nós, seus filhos:

É pai tão generoso que, mesmo quando presenteado (ou homenageado, como agora), somos nós os agraciados por sua ternura imensa.

Não existem portos seguros. Há tempestade e calmaria, as praias são provisórias. Mas o pai é tão íntegro, farol perene indicando ser possível chegar, que seguimos viagem, supridos de inesgotável reserva de afeto
.

O afeto que o amor desses dois eternos namorados irradiou para nós é nossa herança mais preciosa. Eles sempre foram eternos namorados, indissociavelmente de ser pai e mãe. Nessa unidade, nunca deixava de prevalecer o singular de cada um. Entre ideais comuns, a solidez da fé, as preocupações diferenciadas, as imposições do dia a dia e o mundo dos sonhos, a possibilidade do lúdico e um respeito pela individualidade de cada um, fomos crescendo, sem nunca perder o gosto de viver, de estar juntos, sem desistir de sermos felizes e fiéis a nós mesmos. Muitas vezes, naturalmente, os caminhos parecem estranhos, obscuros – sem um porto seguro... Nas construções pessoais que fazemos, contudo, estão, indeléveis, essas marcas.

Dos dois vem, também, a possibilidade que vários dos filhos temos de transformar vida em palavra escrita – a marca do indelével... Meu pai incluiu no Nova Colheita um outro prefácio – o que ele próprio escreveu para o meu primeiro livro de poemas. Esse prefácio é, sem sombra de dúvida, a página mais bela de meu próprio livro.

Para meu pai – e ele escrevia isso então - a poesia é um fazer para doar. Em suas palavras: Sua essência é de uma interioridade tão íntima, que se teria por incomunicável, mas ao mesmo tempo, é de uma irradiação tão poderosa, que se não contém no universo espiritual de quem por ela é estigmatizado.

Em meu pai, a pessoa e o poeta são indissociáveis. Ele já faz poesia simplesmente ao ser como é; e nele, realmente, o fazer poesia é doar-se. Ele me disse uma vez, um pouco tímido diante da própria necessidade de deixar que aquilo que escreve se irradie: escrever poesia, porque não faz mal a ninguém. Sua poesia, sem rótulos, é feita de delicadeza e integridade. Em mim, muitas vezes essa posse em surdina da poesia é arrogância, auto-suficiência, isolamento, pouco saber. Tenho muito o que aprender desse desapego, dessa forma de liberdade que ele alcança e que generosamente revelava, fazendo para se doar, ao dizer, em seu prefácio ao livro de alguém que ensaiava seus primeiros poemas:

Ser você mesma, com inteira humildade, num mundo violento e esmagador e, ao mesmo tempo, rico em valores e caminhos...

e

Não se trair na poesia, nem trair a poesia, nada recusando daquilo que faz e constitui a dignidade humana.

E mais adiante, sabedoria maior, privilégio reservado a telúricos transcendentais, ele dizia:

O homem, em suas limitações, e o mundo, em sua ordem e em sua desordem, não nos podem satisfazer.

Peregrinar para o Absoluto – é por aí que a nossa indigência se vai superando a si mesma, descobrindo roteiros de crescimento e transfiguração.


Ser ele mesmo, não se trair na poesia, peregrinar para o Absoluto. É isso que esse pai poeta realiza em si próprio... Ele, que é página tão bela, indelével, em nossas vidas.
Salvador, 04 de novembro de 1997.
Ana Cecília

Em: Cariricaturas em Verso e Prosa. Editado por Emerson Monteiro, Socorro Moreira e Claude Bloc, 2010.

Obs.: Aos 88 anos, José Newton Alves de Sousa, meu pai, continua sendo este de quem falam estas palavras.

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