terça-feira, 30 de novembro de 2010

Do livro novo de Ferreira Gullar

[Trecho]

porque tudo o que acontece
acontece uma única vez
uma vez
que
infinita é a tessitura
do real: nunca os mesmos cheiros os mesmos
sons os mesmos tons as mesmas
conversas ouvidas no quarto ao lado
nunca
serão as mesmas a diferentes ouvidos
a diferentes vidas
vividas até o momento em que as vozes foram ouvidas ou
o cheiro da fruta se desatou na sala; infinita
é a mistura de carne e delírio
que somos e
por isso
ao morrermos
não perdemos todos as mesmas
coisas, já que
não possuímos todos a mesma
quantidade de sol na pele, a mesma vertigem na alma
a mesma necessidade de amor
e permanência

Ferreira Gullar (2010). "Rainer Maria Rilke e a Morte". Em: Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio Editora.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Série "Oníricos"



Olhos

Atrás de seus olhos
minha mãe guarda
os meus cabelos cortados.

Eu estava morta
ou de há muito partida.

Atrás de seus olhos
as coisas estão muito bem postas:
gavetas, papel de seda,
laços de fita.

Eu olhava por seus olhos e via
assim translúcidos,
os ossos de sua face,
móveis, diáfanos,
dissolvendo-se em névoa.


E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados,
meus longos cabelos de criança
cortados para que eu não ficasse raquítica
e porque não cuidava bem deles:
não queria lavar,
não prendia que prestasse,
não queria desembaraçar.

A não ser que ela o fizesse,
dia de sábado, usando óleo “Suave”,
para não doer.


Foto: Doce ilusão. MVítor.

sábado, 20 de novembro de 2010

Rota




Sou filha e filho de meu pai.
Temperamento, modo de estar no mundo, legado.

Sou também filha de minha mãe,
em quem ela deposita sua confiança.

Ao mesmo tempo sou, agora, filha de mim mesma...
como o é um escritor,
como o é uma mulher mãe de filhos,
na estrada vertiginosa dos cinqüenta.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Crônica às avessas





Preciso reativar este Moleskine eletrônico.

Não sei para onde foram minhas palavras.
Não sei para onde vai o meu amor.
Não quero palavras, embora.
Quero o abraço do meu amor, o concreto do seu corpo e o modo como se abandona em mim.
Quero a ternura de peles se tocando e que todas as noites sejam noites do meu bem.

Leio que um geminiano atravessa a rua sem saber exatamente por que.
Não sei por que atravesso ruas ou deixo de atravessá-las.
Mas lembro de um videogame antigo, galinhas atravessando ruas e sendo mortas e atravessando e sendo mortas e a morte se esvai de significação.
Por vezes são tantas as mortes que a mídia nos traz, cujo vazio grita a cada momento.
Por vezes a morte chega e palavras não há que se possa dizer de mínima utilidade.

Há um talvez cansaço de palavras, de sua relativa, impossível leveza.
Inicio gestos que não concluo -
isto, só o começo do que se chama envelhecer.
Quis ir buscar hoje, por duas vezes, os livros de Drummond e Adélia Prado, e me perdi no caminho entre a cadeira e a estante.
Entre imagem e palavra.
Entre lembrança e hoje.
Entre um beijo perdido para sempre e o poema que não ficou,
coisa apenas volátil.

Volto aos livros, antes que se volatilizem,
quando foram meus de modo tão intenso, mas outrora.
Muitas coisas se passam hoje assim, neste lugar que é outrora.
Às vezes outrora é mais concreto do que hoje.
Hoje atuo, nem sempre vivo.
Hoje dou conselhos e tenho um pretenso saber.

Dentro de mim mora uma rua.
Nesta rua tem um bosque que não se chama solidão.
Neste bosque tem uma árvore e a nostalgia da verdadeira, inefável solidão.

Na solidão de verdade encontro também o meu amor.
Tenho um Moleskine eletrônico e mais uns tantos na gaveta.
Um Moleskine
...ou talvez um maracatu atômico, dança virtual,
realidade que se expande de modo a virar
carne e sangue em mim.


Dois Mundos. Foto de MVítor.

sábado, 13 de novembro de 2010

Luto





A tristeza me atinge multiplicado,
no mosaico deste clã de que sou parte.

O meu próprio eu,
entrelaçado.

A tristeza se instala em mim pelas cores deste céu,
seus tons em rubro.

A tristeza não avisa apenas flui,
seu sangue em mim.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

De Hilda Hilst

Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo.


Hilda Hilst. Em: Do Amor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quando faz silêncio no blog: rol de motivos igualmente plausíveis




Há no mundo palavras em demasia,
mas sinto que perco a palavra.

Escrevi 400 páginas insensatas, secretas.
Criei barreiras, esquizofrênico split.
Agora me travo na superfície, eu expectadora,
não a que sente e vive.

Eu através de uma imagem apresentada a outros, em espaço virtual.
Daí o silêncio.

Nesses dias sintonizo delírios, faço contato com a raiz da palavra, fonte viva, inconsciente, energia em mim como se intacta, geradora de palavras e imagens.

Ainda temo que, ao recuperar a palavra minha mesma,
tenha envelhecido.