Crônica às avessas





Preciso reativar este Moleskine eletrônico.

Não sei para onde foram minhas palavras.
Não sei para onde vai o meu amor.
Não quero palavras, embora.
Quero o abraço do meu amor, o concreto do seu corpo e o modo como se abandona em mim.
Quero a ternura de peles se tocando e que todas as noites sejam noites do meu bem.

Leio que um geminiano atravessa a rua sem saber exatamente por que.
Não sei por que atravesso ruas ou deixo de atravessá-las.
Mas lembro de um videogame antigo, galinhas atravessando ruas e sendo mortas e atravessando e sendo mortas e a morte se esvai de significação.
Por vezes são tantas as mortes que a mídia nos traz, cujo vazio grita a cada momento.
Por vezes a morte chega e palavras não há que se possa dizer de mínima utilidade.

Há um talvez cansaço de palavras, de sua relativa, impossível leveza.
Inicio gestos que não concluo -
isto, só o começo do que se chama envelhecer.
Quis ir buscar hoje, por duas vezes, os livros de Drummond e Adélia Prado, e me perdi no caminho entre a cadeira e a estante.
Entre imagem e palavra.
Entre lembrança e hoje.
Entre um beijo perdido para sempre e o poema que não ficou,
coisa apenas volátil.

Volto aos livros, antes que se volatilizem,
quando foram meus de modo tão intenso, mas outrora.
Muitas coisas se passam hoje assim, neste lugar que é outrora.
Às vezes outrora é mais concreto do que hoje.
Hoje atuo, nem sempre vivo.
Hoje dou conselhos e tenho um pretenso saber.

Dentro de mim mora uma rua.
Nesta rua tem um bosque que não se chama solidão.
Neste bosque tem uma árvore e a nostalgia da verdadeira, inefável solidão.

Na solidão de verdade encontro também o meu amor.
Tenho um Moleskine eletrônico e mais uns tantos na gaveta.
Um Moleskine
...ou talvez um maracatu atômico, dança virtual,
realidade que se expande de modo a virar
carne e sangue em mim.


Dois Mundos. Foto de MVítor.

Comentários

Dentro de mim, Ana, também existem ruas e árvores, além de uma borboleta lilás:

Borboleta Lilás


Olho para as asas lilás
Arrisco sentir o que há aqui dentro.
Qual é mesmo o destino do vôo?
Certamente um vôo em liberdade.

A Fênix-borboleta estava no seu casulo
Recuperando-se da queda.
Tinha medo.
Mas o céu é azul...

Sou cúmplice dos caminhos
Dessa ave que insiste em se expor
E pintar de todas as cores o além do arco-íres

Tudo aqui anda a mil.
Sigo a música, a sabedoria da canção.
Sou então grata à vida, aos seus encontros.

Inicio um vôo de peito aberto, coração cicatrizado, vulcanizado.
Sigo as respostas que a arte me aponta.
Experimento o bater das asas.
Olho para a minha base, pai e mãe, meu ouro, minha mina.
Sou bem leve, leve e anseio o sonho
Até gerar o som.

Renata Moreira da Silva
(22/04/2009)

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