quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Série "Oníricos"



Olhos

Atrás de seus olhos
minha mãe guarda
os meus cabelos cortados.

Eu estava morta
ou de há muito partida.

Atrás de seus olhos
as coisas estão muito bem postas:
gavetas, papel de seda,
laços de fita.

Eu olhava por seus olhos e via
assim translúcidos,
os ossos de sua face,
móveis, diáfanos,
dissolvendo-se em névoa.


E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados,
meus longos cabelos de criança
cortados para que eu não ficasse raquítica
e porque não cuidava bem deles:
não queria lavar,
não prendia que prestasse,
não queria desembaraçar.

A não ser que ela o fizesse,
dia de sábado, usando óleo “Suave”,
para não doer.


Foto: Doce ilusão. MVítor.

Um comentário:

Maria Muadiê disse...

gosto muito desse poema.