Série Oníricos (2).




ATEMPORAL

O canal aberto para o real em seu âmago é por sobre o universo.
Energias intangíveis, incontáveis.
Espaço bruto, indomado.
Essa coisa ignota busco preservar, alimentar, tornar palavra,
para que dela saia a poesia.
Assim me movo no sonho sem história.
O sonho é sem tempo e é eterno.
É terno, movimento fluido, diáfano, tudo é possível,
tudo é suave.

Nesse espaço-tempo me desfiguro, me reconfiguro,
calada e só,
entre tanto.

Perambulo em espaços secretos povoados de formas, nimbos,
nuvem, ilusão.
Não é preciso chegar.

Tudo isso ressoa em meu silêncio.
Rumor de passos fazendo eco em inéditas ruas.
Ali estou, sem palavras, apenas imagens, reverberantes.
Ali nunca estive, no entanto ali estou,
tudo é possível.

Ecos vestígios, resquícios do que vivi de intenso, imponderável, imenso,
e do que ao mesmo tempo nada é.

Farol a brilhar no escuro – talvez como a luz de uma pequenina estrela, há muito morta mas que ainda agora nos chega, nessas vias em que o sonho faz a curva.

De dentro dessa persistente ferida tento extrair, machucando o nervo exposto,
um verso.

Imagem: Árvorevida. Gustav Klimt.

Comentários

elsa disse…
Lindíssimo!!! Amei! Bjs
Leonardo Afonso disse…
me transportou para essa nuvem onírica de signos e sonhos. tecendo a vida com o que foi, o que poderia ser e mesmo o inefável.
excelente!
Leonardo Afonso disse…
ah, sem falar que eu adoro klimt!
Ana Cecília disse…
Foi assim que aconteceu, um sonho. Obrigada a vocês pela visita e pelas palavras!
Ramon Alcântara disse…
Diálogo de poesias:

Anverso

O poema é meu anverso,
o verso sou eu.

Ramon Alcântara



Ann Nothing lhe aguarda!
Abz.
Raiça Bomfim disse…
Esse poema ficou em mim, renitente.
Ana Cecília disse…
assim é o sonho...
também verso e anverso.
beijos pra vocês!

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