Dor






(por sua sensibilidade, filha.)

imagens todas que se toldam, velozes,
águas de nunca visto rio que me acometem

cada gesto, cada som
detalhe mensagem
degustá-los, queria: ver, contemplar

pois que sou contemplativa

águas passam,
passam imagens
fatos já não são
já não haja
que não me tomem

sou eu que me deixo perfurar em todas as camadas de
mielina

por qualquer belo sutil cruel
detalhe dessa vida

às vezes sou névoa e estou imersa
parte indiferenciada

o meu gesto rompe a bruma por vezes e emerge o vulto que sou eu,
singular

húmus, orvalho, sombra nessa clareira

pois não há como depurar a dor da menina que não conheci mas de cuja morte
sei
de cujos 14 anos
sei
de cujo corpo grávido perfurado por 15 balas
sei.


Foto: Nuances. MVítor.

Comentários

Maria Lucia disse…
Lindo Ana Cecília. Um grande beijo, Maria Lucia
Thalita, disse…
Cecília, que poema mais lindo... Estou emocionada...
mariangela disse…
amei! lindo demais! obrigada Ana! Mari
anaclara disse…
Pura emoção...
Obrigada pelas palavras, mãe.
william Gomes disse…
nada como a sensibilidade e poder da palavra para um sussurro de dor
denise disse…
ana, você tem o dom de tocar o indizível através do belo, esse é o poder maravilhoso e incomensurável do artista.
elsa disse…
Lindo Ana! Ainda bem que da dor pode emergir a poesia...senão, que seria de nós?
Bartira disse…
Profundamente lindo.
que coisa mais linda... me lembrou Frida Kahlo!
beijos...
Maria Muadiê disse…
Lindo, lindo, lindo.

Estava com muita saudade de sua poesia.
um beijo

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