sábado, 22 de outubro de 2011

Mariana





O dia é lindo, tudo vive,
frutos, flores e corações.

HOJE NASCEU MARIANA, MINHA NETINHA!

Descobri que felicidade tem números:
22/10, 10:35h, 3,420 kg, 49 cm.

Hoje números são poesia.





Foto: Flor. Papai Vítor.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

High




São estes os acontecimentos:



A chuva me disseca.

A tarde me possui que me dissolvo.

Tenho que fechar os olhos para não desvairar totalmente, tomada em pleno trânsito por tal emoção.

A chuva são mil vagalumes, imagens inebriantes.

A chuva é delírio, desvario em plena tarde.

Intoxico-me sem defesas.

São poros abertos, brônquios em êxtase, chuva em todo o corpo e em toda a alma, e tenho que fechar os olhos para não desvairar.

As margens da estrada são magia, pura vibração e me emociona até mesmo uma fachada de shopping onde as sombras flutuam pelo efeito das luzes dos carros que passam.

Isso a chuva faz comigo:

querer pensar em nada.



Foto: Cores em fuga. MVítor.

sábado, 15 de outubro de 2011

Poema da espera





Para Mário Vítor, em 8 de maio de 1981



A ti não sei que diga

que te vivo tanto

e te amo a cada minuto,

enternecida ou aflita,

na longa espera que se faz sonho

e te faz vida.


A ti não sei que diga,

se tão somente te quero e se,

em qualquer forma ou tempo,

te amo,

transpostos quase

quaisquer condições ou medos.

E se me enterneço e choro

por tua simples vida,

absoluta sobre tudo.


E se assim te amo,

nada mais te digo agora,

quando me cantam pássaros no coração,

e a música do mar paira sobre automóveis

e o céu de maio me devolve

surpreendentes nuvens cor-de-rosa

na esquecida paz do entardecer.


Qualquer palavra cala,

se tenho na alma

contornos inesperados,

brinquedos, canções e risos,

melodias de amor e esperança.



Foto: Pipa. Mário Vítor.


sábado, 8 de outubro de 2011

Ocaso



A velhice é um lugar que existe.

Seus modos, andares e olhares sobre um mundo que se vai perdendo.

A ele se adere, em seus detalhes e pequenas misérias, ou em sua efêmera beleza,

feitos como se absolutos em si mesmos.

Tudo é ruído ou tudo é silêncio.

Quietude tão povoada do que foi e do que é.

Ela se volta para a infância, reino encantado onde era favorita de todos, um eterno brincar, rir, abraçar. Ou para mágoas em poços até agora jamais adivinhados.

Ele se desdobra, ora em extremos de generosidade e cuidados, ora preso nas armadilhas e ritmos do próprio corpo. Seus andaimes são os da fé e de suas vestimentas, em um mundo idealizado de notáveis grandezas.

Aquela se aflige porque a doença quebra os muros de silêncio que tão cuidadosamente erigiu, por toda a sua vida, ao redor de sua alma e de seu corpo. Mais doloroso que a doença é sofrer a exposição do próprio corpo e dessas ainda mais explícitas emoções humanas desordenadas ao seu redor.

É tudo tão presente e tão eterno.

As prisões do cotidiano não têm mais poder. No ser, eles crescem e se libertam.

Capto esses sinais difusos em não sei ainda quais sejam lugares em mim.



Foto: Luz de esquina. MVítor.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma Mulher



Hoje é julho e sou uma mulher.

Sou só e nua.

Quero, sim, o fruto proibido,

rubro e teso em minha pele.

Quero a última gota,

latejo e açoite,

o gozo impossível,

pleno fugaz (e)terno.



Não conheço essa aflição que sou eu no mais secreto.

Desfibrilação, desfalecimento, desvario que se desata.

Desejo que se desvela, nu e sem decência.

Não posso nomear o que me toma, e me reduz,

e me arrebata,

e só, e nua.


O silêncio da caverna.




Publicado em A Impossível Transcrição (De tudo fica a poesia).

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Da Dor






A dor é algo como se não fosse.

Derrapagem à beira do abismo

(aquele como se não estivesse).

Holofote sobre escura porção de sombras.


Eco à revelia do próprio eu

re-ver-be-ra-ção

por sobre o dia.


Fissura aberta minando,

ora esquecida ora sempre,

em alguma parte do corpo

como se fosse o todo.



Dasdô?

Na infância era uma prima

e seus olhos encovados.


Publicado em Uma Vaga Lembrança do Tempo.
Foto: "Prisioneiro do Tempo". MVítor.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Veio dentro da noite




Veio dentro da noite

Veio como magia

Veio belo e terno e triste

como só os mais belos poemas


Veio de muito longe

(mas sem tempo ou espaço ou limites)

Estava ali desde sempre


É para sempre essa luz em teu olhar

Não importa o que aconteça, não importa quanto doa

Essa luz é para sempre,

magia de quem sonha o mistério da vida plena


Assim veio o poema dentro da noite

Pelo olhar da criança que ainda está aqui

Dentro do éter no qual damos as mãos para seguir,

sempre



domingo, 2 de outubro de 2011

Outro poema de Hilda Hilst

Como se te perdesse, assim te quero
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro


Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.


Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.