Ocaso



A velhice é um lugar que existe.

Seus modos, andares e olhares sobre um mundo que se vai perdendo.

A ele se adere, em seus detalhes e pequenas misérias, ou em sua efêmera beleza,

feitos como se absolutos em si mesmos.

Tudo é ruído ou tudo é silêncio.

Quietude tão povoada do que foi e do que é.

Ela se volta para a infância, reino encantado onde era favorita de todos, um eterno brincar, rir, abraçar. Ou para mágoas em poços até agora jamais adivinhados.

Ele se desdobra, ora em extremos de generosidade e cuidados, ora preso nas armadilhas e ritmos do próprio corpo. Seus andaimes são os da fé e de suas vestimentas, em um mundo idealizado de notáveis grandezas.

Aquela se aflige porque a doença quebra os muros de silêncio que tão cuidadosamente erigiu, por toda a sua vida, ao redor de sua alma e de seu corpo. Mais doloroso que a doença é sofrer a exposição do próprio corpo e dessas ainda mais explícitas emoções humanas desordenadas ao seu redor.

É tudo tão presente e tão eterno.

As prisões do cotidiano não têm mais poder. No ser, eles crescem e se libertam.

Capto esses sinais difusos em não sei ainda quais sejam lugares em mim.



Foto: Luz de esquina. MVítor.

Comentários

Stela disse…
Ana,
que poema tocante. Belo!
fiquei emocionada e grata a você por tanta beleza e leveza distribuída em versos.
Ana Cecilia disse…
Obrigada, Stela!
as coisas que a gente vive intensamente viram versos assim...
Thiago Marques disse…
Ana Cecília, peço licença para entrar. Renata me indicou o caminho para seu blog.
Nossa... que lindo. Realmente emocionante. À medida que fui lendo, senti-me envolvido pelas palavras e distanciado do lugar concreto, onde estou (estou no Aeroporto de Guarulhos), e mergulado, delicada e silenciosamente, nas ruas de sua poesia.
Eu sinto esta saudade imensa de um lugar e de um tempo que nunca conheci. Reconheci-me, assim, por alguns instantes, em suas linhas. Foi realmente tocante me ver de volta à casa onde sempre morei, mas nunca estive...
Abraço, Thiago.
p.s. espero poder voltar a visitá-la aqui.
Ana Cecília disse…
Thiago, seja muito bem vindo!
vejo que essa casa, a da poesia, também é sua.
abraço e obrigada!
Thiago Marques disse…
Muito obrigado. Ler seu post, como eu disse, despertou-me uma nostalgia de algo não-vivido (ou esquecido) e me fez também escrever um post sobre isso.
Como foi seu post que inspirou o sentimento que, por sua vez, inspirou meu post, vim mostrar-lhe, se tiver um tempinho para lê-lo: http://osnovosretirantes.blogspot.com/2011/10/saudades-distantes.html
Forte abraço, Ana!

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