quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tiago








Todos nós que convivemos com Tiago fomos tocados pelo seu modo de viver. Sua morte nos trouxe uma mais funda consciência disso. Tiago chegava perto de cada um de forma discreta, sem alarde, mas sempre muito verdadeira. Não é por acaso que todos nós sentimos essa necessidade de falar sobre ele, de partilhar entre nós o tanto que aprendemos ao conviver com eles, privilégio nosso. Como diz Ana Cristina, Tiago terá muito trabalho, lá em cima, para cuidar dessas pessoas novas que ele ajudou a despertar em nós. É o que sinto também, no meio da saudade dele, saudade das conversas tão boas que a gente tinha desde que ele era pequeno e eu ia pro Crato de férias. A diferença de idade e o fato de vivermos em diferentes cidades nunca foi um problema, e Tiago foi sempre pra mim um dos primos mais próximos e queridos. A gente ficava um tempão sem se ver, mas a conversa simplesmente continuava, eu nunca me cansava de conversar com ele.

Uma vez, estávamos conversando na varanda e entrou em casa uma mulher muito feia. Ele comentou comigo, sem baixar o tom de voz: “que mulher feia, não é?” Eu falei: “fale isso não, Tiago”, e ele: “mas tu acha, não é?” Tão pequeno e já desejando distinguir o que é verdadeiro da hipocrisia das relações em sociedade... Acho que essa mesma capacidade de observar, refletir e buscar a verdade esteve sempre no coração desse menino que D. Fernando descreve como “buscador de Deus”. E é essa postura, tão presente nele, que faz a diferença, que faz com que cada um de nós se lembre de algo que ele fez ou disse e que persiste em nós, como inspiração ou até mesmo como incômodo, no sentido de que nos questiona e nos faz querer ser melhores pessoas. Tiago, que nunca queria dar trabalho - mesmo tão cansado e sofrendo tanto não se queixava, ao contrário, se ocupava de cuidar dos outros, de preparar as pessoas a quem amava para esta provisória separação -, agora nos dá trabalho... O trabalho de nos desacomodarmos, de nos inquietarmos e questionarmos o modo como usamos o tempo de viver que nos é dado. É disso que conversamos entre nós, quando partilhamos a profunda comoção de sua morte e o tanto que essa dolorosa experiência nos ensina.

Fui visitar Tiago no hospital, pensando em levar pra ele algum conforto, mas foi ele quem me consolou e me ajudou. Em uma de nossas últimas conversas, eu falava de como não consigo rezar, ou perseverar em um caminho de fé, de como é fácil a gente se distrair com as coisas do dia a dia que preenchemos tanto, como se a gente fizesse tudo pra esquecer o que é essencial... Ele me disse: “rezar é estar diante de uma Presença”. E me falou de várias orações, e aconselhou de ler os Salmos, especialmente o Salmo 90. Ao fazê-lo, ele estava partilhando a própria experiência e também, ainda sem se queixar, permitindo que soubéssemos o que estava sofrendo, e abrindo portas para nós.

Tiago era uma pessoa como qualquer um de nós. Humano, com forças e limitações. Mas acreditava na vida eterna... E nos mostrava isso dentro das situações mais humanas, pois não há nada tão humano quanto estar preso em um leito de morte e sentir saudades das pessoas queridas. Ele abria portas por onde passava e, mesmo limitado por tais circunstâncias, era livre. Fazendo a vontade de Deus ele era livre. Não sou capaz de explicar isso, mas estou certa de que cada um que esteve com Tiago nesses últimos tempos tem essa certeza tanto quanto eu tenho agora. Sem fazer sermões ou pregações, sem moralismo, Tiago, por ser quem era e viver como viveu, nos fez pensar sobre o modo como vivemos – presos tantas vezes a circunstâncias insignificantes, anestesiados, perdidos de Deus.

Querido primo, por favor, permita que a gente lhe dê trabalho... Continue sendo essa inspiração em nossas vidas e, de onde você estiver, reze por todos nós, especialmente por seus pais e por seus irmãos.

Obrigada por sua vida.

Junto com minha amiga Isabel, quero agora rezar por você neste poema:

Meu Deus, receba o primo de Ana, o filho de Neyde, o escritor, o homem de fé, o beijo do Ceará.

Nossa Senhora da Penha, leve consigo, no colo, penhasco acima, este menino-que-viu-além.

Meu Deus, receba esta prenda. Deixe descansar entre os seus.

Depois, permita que ele mande um recadinho amoroso nos sonhos dos 49 primos, dizendo que está feliz consigo.


Ana Cecília



Na foto, o inesquecível sorriso do menino Tiago.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Outdoor








Este trem em néon desperta em mim paisagens:
do que na infância fazia festa.

Este homem velho atravessa a rua em direção ao ponto de ônibus.
A rua parece cravada em mim.
O ríctus em sua boca, dor secreta,
contrai minha própria face.

O peso da idade, da vida
e do guarda-chuva.

Meu pai em seus passos
de homem velho.

Tantos caminhos dentro de mim.

Tão frágil a vida.
Tão forte o ser.


Foto de Mário Vítor: "Vertigem".