sábado, 28 de setembro de 2013

Mãe e Olhares


Olhos

Atrás de seus olhos
minha mãe guarda
os meus cabelos cortados.

Eu estava morta
ou de há muito partida.

Atrás de seus olhos
as coisas estão muito bem postas:
gavetas, papel de seda,
laços de fita.

Eu olhava por seus olhos e via
assim translúcidos,
os ossos de sua face,
móveis, diáfanos,
dissolvendo-se em névoa.


E lá estavam, estendidos sobre panos dobrados,
meus longos cabelos de criança
cortados para que eu não ficasse raquítica
e porque não cuidava bem deles:
não queria lavar,
não prendia que prestasse,
não queria desembaraçar.

A não ser que ela o fizesse,
dia de sábado, usando óleo “Suave”,
para não doer.


Publicado em A Impossível Transcrição, edição de autor, 2008

domingo, 22 de setembro de 2013

Imagens



que a matéria vida era tão fina
pedra, matéria viva
vida, matéria carne
Vênus nascente, a-manhã-ser
pedra
imagens de infância e amanheceres
a pura água cristalina nascendo da pedra
chapada, música de água, elemento pedra
pedrinhas seixos sexo brincante
ser de húmus e bétula
corpos em árvore, frutos flor sumos o cheiro da mata
colo de Mãe e Terra.


Resposta ao desafio poético em imagens de Tania Contreiras (Arteterapeuta)

Foto: Tomas Rucker

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Olhar de avó


Olhar de avó


E por que esse retorno aflito
de terra e lugar?

Não suporto essa agonia do presente.

Esse vazio, essa dor,
essa posse absoluta do efêmero.

Antes absoluto
esse desejo de raízes...
Estrada, carro de boi,
pés descalços,
vozes,
tardes.

Antes fora eu reencontrada
nesse olhar de avó
que é lembrança tão doce.