terça-feira, 22 de outubro de 2013

Poética da família e da comunidade, na vida



É belo quando a gente se dá conta de uma síntese que emerge de uma trajetória percorrida com esforço, paixão, feita de trabalho e encontros.

Hoje participo de uma sessão do Café Científico, no ACTA 2013, UFBA, que este ano comporta quatro conferências. Agora me dou conta da beleza que é falar de poética ao falar da pesquisa em psicologia cultural. Os demais conferencistas vêm das áreas de Artes e Biologia. Entre títulos tais como: "Dança Telemática. Dançando com corpos distantes", "Agricultura e Conservação da Biodiversidade: Conflitos e Soluções", e "Supressão, limiares de extinção e conectividade ", lá estou eu falando de poética.

E de tal forma que meu resumo e duas citações que apresento cabem aqui no Casulo. Síntese da qual tomo maior consciência, presente nela.

"Família e comunidade: por que falar de uma poética"?

Esta reflexão nasce de uma trajetória de pesquisa pautada na necessidade de compreender a natureza processual do desenvolvimento humano e de construir uma psicologia sensível ao contexto cultural. No horizonte, o compromisso de contribuir para a promoção de mudança social e a educação de um olhar aberto à realidade de famílias e comunidades vivendo em pobreza. A psicologia cultural do desenvolvimento, tal como delineada por Jaan Valsiner e colaboradores, canaliza a maior parte dessas motivações. Transições desenvolvimentais têm sido um lócus privilegiado de análise, assumindo que representam momentos em que a emergência de novidade psicológica e social é mais provável e explícita e que o estudo dos fenômenos desenvolvimentais não pode deixar de reconhecer a incerteza subjacente à experiência da pessoa em desenvolvimento. Novidade psicológica emerge de um campo de construção de significados, dentro do qual a pessoa se move, negociando demandas heterogêneas, ambivalentes. Todo o processo de desenvolvimento supõe semiose, por conseguinte, mediação. Em um contexto cotidiano, especialmente quando marcado por vulnerabilidade psicossocial, o movimento da pessoa implica um constante deslocamento de significados, nas esferas coletiva e pessoal (Valsiner, 2003, Abbey, 2005). A pessoa age “como se” o mundo fosse diferente, criando distância em relação ao aqui e agora e construindo pontes para o futuro, em direções diversas. É esse mecanismo de distanciamento, que permite a orientação para o futuro através de posições do Eu do tipo “como se”. Está implicada aqui uma poética desenvolvimental de realidades vividas.


Poema-comentário de Emily Abbey:

A experiência poética do pesquisador

pelo incerto entrelaçamento self e outro
self e pesquisa
self e família
self e passado
self e realidade para além das “lentes” através das quais fazemos nossas análises
é mais do que etnografia: é poesia.

É um processo do pesquisador, e do conhecimento,
à medida que eles constroem um ao outro através de ciclos de incerteza,
e do banal que é retirado da prateleira e tomado pelo lápis de uma mulher, mãe;
self e outro.

Não é apenas apresentar o outro, sujeito, em sua vida.

É também, ali à mão, a poética de nossas próprias vidas;
é a incerteza do fazer, de cruzar esta madrugada, e a seguinte, que desafiam nossa força
– e, ao mesmo tempo, estamos sempre como mariposas
atraídas pela luz.

A poética do pesquisador é onde uma incerteza toca uma outra, a seguir, onde o filho contém a mãe e a atemporalidade os envolve no tempo.
Onde há montes e trilhas, olhares e mães alcançam e, ainda assim, não podem alcançar.

Esta é a poética da pesquisa.

(Emily Abbey, sobre um diário de campo de Ana Cecília Bastos)


Enfim:

"Se procurar bem, você acaba encontrando
não a explicação (duvidosa) da vida,
mas a poesia (inexplicável) da vida".


Drummond.

Foto de Roberto Faria.

Um comentário:

Renata Moreira disse...

Divino e especial!!! Parabéns por tudo!!!