quinta-feira, 12 de março de 2015

Poema materno inacabado






Poema que li ontem no Seminário: "A Mulher na História do Tempo Presente" (no Instituto Feminino da Bahia).
Para minha mãe, que nunca é ausente.




Mãe é feito sangue consagrado no parto,
o coração trêmulo.
Memórias de mãe são como sangue.
Sangrar é anúncio, pois que mãe é matriz.
Sangue é via veias artérias vida.
Memória tem artérias e são vermelhas.
O sangue marca os ciclos e se lava com água, amor e silêncio.
Quando a menina em susto vê o sangue,
vem a mãe, e vem a água,
e lavam os panos.
Pois que mulher existe entre panos,
e o silêncio é ouro.
A natureza fala por gestos e lágrimas e sangramentos,
o que também se conhece pela palavra amor.

A mãe se desdobra antes de retornar a si mesma,
em concavidades.
Agora cabe à filha o mesmo ancestral gesto de trazer a água
e lavar as marcas do corpo quando não sabe de si mesmo.
E o silêncio é outro.
O cuidado sustenta o existir,
sem palavras.

Mãe é feita de concavidades, colos que se estendem por sobre os dias,
e através das noites.
Nunca se ausenta a mãe das madrugadas,
mesmo se as madrugadas podem trazer sua ausência.
Não deveriam.
Mãe nunca é ausente,
Ela transparece nos gestos e legados.

(Publicado em A Impossível Transcrição.)