O homem das galinhas



Há três anos, o homem das galinhas instalou sua casa à beira do caminho, numa das mais importantes avenidas de Salvador.

O homem das galinhas fica lá, sentado em seu plateau, acima do tempo e do espaço.

O homem das galinhas e seus animais mortos.

O homem das galinhas jamais usa camisa.

Seu corpo e sua mente tornaram-se imunes às intempéries.

O homem das galinhas traz sempre o cabelo muito bem cortado e cuida de sua longa barba.

Ele mata ritualisticamente cães e gatos, enquanto alimenta galinhas, pombos e urubus.

As galinhas também morrem ou são mortas por ele. Para o homem das galinhas, gatos e cães não são gatos e cães.

O homem das galinhas guarda os domingos – único dia em que bebe abertamente e deita-se no chão para descansar.

O homem das galinhas trabalha dentro de um certo perímetro cujo centro é a esquina que considera casa sua. Ele anda de um lado para outro, sempre muito atarefado.

Uma vez, vi o homem das galinhas andar pela minha rua.

No pedaço de calçada que é sua casa, o homem das galinhas empilha garrafas vazias e joga milho pelo chão.

O homem das galinhas é um fator de risco para a saúde pública. Os hospitais do outro lado da rua nada podem contra ele.

Somente uma vez vi o homem das galinhas receber uma visita: um outro homem, igualmente pobre, preto e sujo, igualmente seminu e sem teto.

O homem das galinhas partilhou sua bebida com a visita. O visitante sentou-se cerimoniosamente no meio fio, como quem pede licença.

Nunca vi o homem das galinhas comer algo, ele somente bebe, aparentemente cachaça ou vodka.

O homem das galinhas tem uma misteriosa força. Sem nos ver, e em silêncio, grita discursos aos passantes.

O homem das galinhas não vê os passantes.

Os passantes não veem o homem das galinhas.

O homem das galinhas não fala com ninguém.

Ninguém fala com o homem das galinhas.

A vigilância sanitária de vez em quando leva o homem das galinhas. As galinhas ficam desnorteadas e não conhecem o caminho para longe de casa.

O homem das galinhas sempre volta para casa.

A limpeza pública vem às vezes e remove os animais mortos, grãos e dejetos. Também remove os objetos, bichos de pelúcia, bonecas e enfeites que o homem das galinhas pendurou na única árvore que tem em sua casa.

O homem das galinhas cata outros objetos e os pendura novamente na árvore.

Até que a limpeza pública veio e cortou a árvore.

Nunca vi o homem das galinhas gritar “Fora Temer”.

O homem das galinhas não se importa se estamos no século XXI.

O homem das galinhas está acima de tempo, espaço, leis e normas sociais. Para o homem das galinhas, pouca diferença faz se o mundo e o país em que vivemos ficam mais ou ficam menos enlouquecidos.

O homem das galinhas não quer saber se a terceira guerra mundial está por eclodir.

O homem das galinhas, sendo tão invisível, está ganhando, disparado, a luta contra a vigilância sanitária, a limpeza pública e a prefeitura da cidade de Salvador.

Quem sabe o homem das galinhas possa ganhar a luta contra nossa indiferença e nosso silêncio.

Comentários

Elinalva Bastos disse…
Há muito tempo não abro o meu Blog, hoje resolvi entrar e o sistema do Blogspot tirou meu acesso a ele, mandando eu criar e comprar uma extensão.
Mesmo assim consegui ver os blogs que estavam vinculados ao meu. Só assim para ver que você também demorou para postar seus escritos e deu uma repaginada no blog. Ficou muito bom.
Quanto ao homem das galinhas, ultimamente estou como ele, alheia a tudo que não posso modificar. Não sei se estou indo ou sendo levada, acho que tanto faz.Parece depressão, mas não é, acho que é um sentimento de impotência diante de tanta coisa ruim acontecendo no nosso país.
Os tempos não estão fáceis mesmo. Mas a gente vai seguindo - viver já é resistir, não é? Gostei de saber que você também revisitou seu blog. Também apareceu algo assim pra mim, mas conseguiu entrar e postar normalmente. Acho que essa extensão é somente se quisermos fazer algum upgrade.

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